Após um hiato de seis anos do lançamento de seu último longa metragem, Garota Exemplar (2014), o cineasta David Fincher (Seven, Clube da Luta), um dos mais badalados de sua geração, está de volta com Mank. Em parceria com a Netflix, que nos últimos anos vem investindo em trazer grandes nomes do cinema para deixarem sua marca no seu catálogo (como Martin Scorsese, com O Irlandês, e Alfonso Cuarón, com Roma), o novo filme do diretor é uma viagem até a chamada era de ouro de Hollywood (que se refere ao período de produções norte-americanas entre os anos 1920 até 1960) com base em um roteiro de seu falecido pai, Jack Fincher, que nunca havia se tornado filme antes.
Para ilustrar essa jornada até o período, Mank toma como foco central de sua trama a história real do roteirista Herman J. Mankiewicz (Gary Oldman), durante o período de tempo em que ele escrevia o roteiro de Cidadão Kane (1941), aquele que, quase que de forma unânime, é considerado por muitos um dos melhores filmes da história do cinema. Ao longo do filme, Mankiewicz relembra por meio de flashbacks sua relação com alguns dos nomes mais poderosos do cinema e da mídia da época, incluindo William Randolph Hearst (Charles Dance), que seria sua inspiração para a criação do protagonista de Cidadão Kane.
A começar pelas atuações, Gary Oldman está incrível como o roteirista alcóolatra e autodestrutivo, que desafia o sistema com seu olhar crítico e cínico acerca de sua realidade. Não será nenhuma surpresa se o ator marcar presença na época das premiações em 2021. Juntam-se a ele, também em performances sólidas, Amanda Seyfried, como a doce esposa de Hearst, o magnata da mídia cuja persona é o estopim criativo já citado de Mankiewicz, e o veterano Charles Dance, com sua frieza tradicional dando vida ao próprio W. R. Hearst.
A “devoção” (ou devo chamar de homenagem) de David Fincher a era de ouro de Hollywood é ilustrada no longa por meio de suas escolhas técnico-criativas: A belíssima fotografia em preto e branco; a reconstrução histórica impecável por meio dos figurinos, do design de produção e da direção de arte, e até mesmo o som do filme junto da trilha sonora, que remetem a produções clássicas dos anos 30 e 40, são os destaques aqui. A ideia de Fincher é que Mank cause justamente uma imersão no espectador nesse “universo”, aliando aos já citados pontos técnicos algumas sequências que se passam em estúdios e sets de filmagem, algo que já é clássico em filmes que falam sobre fazer filmes.
Porém, Mank não se trata somente de uma ode vazia ao cinema americano clássico. Com os Flashbacks, onde como já dito, Mankiewicz relembra seu passado, ambientados durante o período da Grande Depressão, da iminência da chegada da Segunda Guerra Mundial e da ascensão da figura do escritor socialista Upton Sinclair, o filme toma contextos políticos a partir do momento em que seu protagonista enxerga com um olhar crítico os seus contemporâneos do ramo do cinema e da mídia e a relação deles com a política em si. Como o filme mostra, ela era parte importante da vida de alguns dos maiores nomes por trás dos estúdios hollywoodianos e da mídia na época, sendo o olhar de Mankiewicz para esse fato, e para as suas consequências, justamente o que gera aquele que é, como dito no filme, “O melhor roteiro que ela já escreveu”, que inclusive lhe rendeu um Oscar em 1942.
E por falar em roteiro, se por um lado David Fincher homenageia Cidadão Kane e o diretor Orson Welles com suas escolhas narrativas já citadas anteriormente, por outro, seu finado pai escreve um roteiro que insere paralelo as questões políticas uma discussão a respeito de quem seria o verdadeiro autor de Cidadão Kane. Com a justificável ideia de “glorificar” os roteiristas de cinema (esse é um filme que tem um deles como protagonista), Jack Fincher acaba se precipitando um pouco ao insinuar em seu texto uma redução da figura de Welles a um mero aproveitador da história de Mankiewicz. De fato, existem muitas discussões a respeito da autoria do roteiro do longa, mas muitos historiadores da sétima arte afirmam que Orson Welles teve uma contribuição importante para a história de Kane.
Além disso, cabe ressaltar também que Mank definitivamente é um filme que talvez não funcione para todos. Os aspectos da obra de recriação e viagem no tempo para um certo período da história marcante para o cinema funciona melhor se o espectador for o famoso cinéfilo “de carteirinha”, pois só assim será possível enxergar a verdadeira “graça” de todos esses pequenos detalhes e referências espalhadas ao longo das mais de duas horas de projeção do longa. Também, como esse trata-se de um filme que busca mostrar um pouco do background de outra obra, é claro que será bem melhor aproveitado e compreendido por aqueles que já conhecem e sabem do que se trata o influente Cidadão Kane, dirigido e estrelado por Orson Welles.
Sendo assim, Mank é o retorno aos filmes de um grande diretor, fazendo algo diferente do que já estava acostumado e se saindo bem nisso. É também mais um filme sobre filmes, daqueles que, como inúmeros outros, agradam o público cinéfilo (ou a parcela dele que acha interessante esse tipo de história). Mais do que isso, sendo esse um que fala sobre Hollywood, que adora se ver auto referenciada nas telas, Mank é um forte candidato para sair vitorioso na temporada de premiações que nos aguarda ano que vem.
Nota: 8,0

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